Impressões da mostra “Universo de Miyazaki – Otomo – Kon” em Brasília

Fala galera, estou falando pela primeira vez no blog sobre um evento que fui na CAIXA Cultural de Brasília, que foi a mostra sobre os mestres da animação Hayao Miyazaki, Katsuhiro Otomo e Satoshi Kon organizada pela organizadora de eventos Nuage.art.br na CAIXA Cultural de Brasília, atrás do prédio do Banco Central do Brasil. O evento ofereceu curso sobre o universo dos filmes de Miyazaki e a oficina de mangá (a qual eu participei) além dos filmes exibidos. A mostra aconteceu entre os dias 12 a 22 de fevereiro e exibiu vários filmes dos três diretores.

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Os leitores desse blog que moram em Brasília sabem que aqui na cidade não tem muitos eventos de quadrinhos e animações como em São Paulo e outras capitais brasileiras, sempre ansiava por um evento desse tipo aqui na cidade. Assim, fiz questão em ir para esse evento e me inscrever na oficina de mangá invés do curso de Miyazaki por causa do horário que atendia melhor as minhas necessidades e também pela rara oportunidade de fazer uma oficina de desenho justamente o hobby que mais gosto de fazer (entrei nesse ramo de animes e mangás por causa disso). Imagino que as pessoas que fizeram o curso de Miyazaki obtiveram uma boa base da cultura japonesa presente nas suas animações e também a forma que o Miyazaki insere esses detalhes em suas obras. A recepção do evento foi boa e não tive dificuldades ao chegar ao local e pegar todas as informações necessárias a respeito dos filmes e da oficina de mangá, juntando com o grande comparecimento de público bem diversificado podemos dizer que a mostra foi um sucesso.

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A oficina de desenho foi ministrada pelo Prof. Dilermano Santos do estúdio de desenho Alpha de Salvador – BA. De início eu fiquei receoso pois achava que a oficina seria direcionada para desenhistas de nível intermediário ou avançado que quisessem aprender o estilo de desenho dos três diretores. Ao chegar lá, fiquei aliviado ao perceber que a oficina era para pessoas com noções básicas de desenho, dando assim para fazer a oficina sem maiores dificuldades. Decidi participar dessa oficina pois esta poderia ser um empurrão para eu voltar a ter o hábito de estudar e praticar desenho, desenhava muito quando era mais novo mas acabei parando por falta de tempo e outras prioridades, mas ainda sim tenho intenção de voltar a desenhar e esses blogs que tenho são a prova disso para procurar boas referências. A oficina de mangá teve três aulas com duas horas cada com um certificado de participação no final, é muito pouco para quem quer aprender da desenhar para valer (é necessário pelo menos um ano para ter habilidades básicas de desenho, a dificuldade para aprender a desenhar é comparável a aprender certos instrumentos musicais) mas mesmo assim deu para pegar bastante coisa sobre técnicas básicas de desenho baseadas no estilo do Miyazaki, Otomo e Satoshi Kon (cada diretor em um dia). A oficina foi bem proveitosa e me fez voltar a estudar e praticar desenho mesmo sendo aos poucos.

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Além disso, vi dois filmes da mostra, o primeiro foi o filme Vidas ao Vento (Kaze Tachinu) do Hayao Miyazaki que estreou a mostra e o filme Steamboy do Katsuhiro Otomo. Os organizadores do evento disponibilizaram e-convites pelo Facebook e para os participantes do curso e da oficina de mangá, assim entrei na sala para assistir o filme sem nenhum custo. No caso do Steamboy, paguei um real pelo ingresso já que tinha a minha carteirinha do cursinho em mãos junto com um acompanhante que pagou dois reais. Os filmes foram passados na sala de teatro que era bem ampla e cabia cerca de 400 pessoas. A visualização estava boa e o som também, embora acho que aquela sala por ser feita para teatro não proporciona exatamente a mesma experiência de um cinema. A procura estava bem alta em especial aos filmes que passaram no final de semana, houve casos de ingressos esgotados na véspera da exibição do filme, sorte que não tive problemas com os filmes que assisti no meio da semana pois cheguei com antecedência para garantir meu lugar. O público do evento em geral era bem diversificado, havia desde famílias até otakus com bolsas de Naruto e K-ON. O acesso ao lugar também é fácil embora tenha andado um pouco para achar a entrada do lugar, como fica atrás do Banco Central tem uma parada de ônibus bem em frente ao local e há também duas estações de metrô próximas (Galeria e 102 Sul). Vamos falar dos filmes que assisti:

Vidas ao Vento:

Kaze Tachinu - The Wind Rises
Esse filme foi exibido em 2013 e ganhou vários prêmios como o Japan Academy Prize for Animation of the Year de 2014 e foi indicado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e para o Oscar de melhor animação. Trata-se da história de vida do projetista de aviões Jiro Horikoshi em uma época conturbada no Japão no início do século XX (Grande Terremoto de Kanto em 1923, Crise de 1929, epidemia de tuberculose e a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial). Ele conhece uma garota chamada Naoko em um trem e se apaixona por ela, ficando um tempo sem encontrá-la por causa de seu trabalho puxado e voltando a encontrá-la anos depois. A carreira dele é o ponto principal do filme e os seu sonhos são compartilhados com o seu colega e rival Honjo, que também almeja ser um grande projetista.

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Com certeza esse é um dos filmes mais maduros e direcionados para o público adulto do Miyazaki, não por ter violência ou sexualidade e sim pelas suas temáticas trabalhadas como por exemplo como algo que poderia ser fantástico e maravilhoso poderia se tornar algo vil e destrutivo como os aviões que poderiam facilitar a vida de todos e ao mesmo tempo destruir a vida de várias pessoas em uma guerra por culpa da ganância humana, deixando a entender que o sonho do protagonista era “amaldiçoado”. Esse filme consegue criar uma ambientação bem similar ao Japão do início do século passado, dá para perceber que é um filme que exalta uma sociedade bem tradicional e conservadora da época, deixando claro o seu público-alvo que são os japoneses (o Miyazaki já falou que seus filmes são direcionados para o público japonês).

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Um destaque que vejo nesse filme é seu pacing, como o filme tem duas horas e consegue retratar uma boa parte da vida dele acelerando e desacelerando o pacing de acordo com o momento da vida dele, já que o filme é um coming-of-age com destaque para certos momentos de sua vida. A animação e a trilha sonora é bem satisfatória mostrando o que o diretor e o estúdio Ghibli são capazes de fazer. Vi algumas pessoas por aí criticando o romance da obra por não ser tão desenvolvido e eu tinha a impressão que iria assistir algo focado nisso mas felizmente o romance não é o foco da obra embora tenha uma importância considerável nesta. Aliás, achei bem satisfatória a forma que o romance foi trabalhado nesse filme, serviu como contraponto ao esforço contínuo do protagonista em perseguir o seu sonho em ser um grande projetista de aviões direcionando seu tempo muito mais para o trabalho do que para a sua família e para si mesmo. O final do filme é bem impressionante e condiz com tudo que foi passado para nós durante o seu desenrolar. Ainda bem que tive a oportunidade de assistir esse filme por um preço acessível na mostra pois em 2013 quando ele foi lançado nos cinemas eu tinha a expectativa que esse filme seria exibido em Brasília e no final a Califórnia Filmes infelizmente não trouxe o filme para cá, nem no espaço Itaú foi exibido (em outras capitais foi mas aqui não). Qualquer dia desses faço uma review completa desse filme aqui mas deixo aqui o meu veredicto de que esse filme é ótimo.

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Classificação: Excelente

Steamboy:

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Outro filme que assisti da mostra dessa vez dirigido pelo Katsuhiro Otomo, Steamboy é um filme steampunk que foi aos cinemas em 2004 e conta a história de um garoto chamado Ray Steam que recebe de seu avô um invento chamado Steam Ball, cujo poder energético seria suficiente para abastecer um país inteiro. Assim ele passa a proteger a bola da Fundação O’Hara que pretende usar a bola para fins gananciosos e ao mesmo tempo ele descobre suas propriedades, usando assim para frustrar os planos das pessoas que o perseguem para obter os poderes da bola e assim proteger sua família e livrar a cidade de Londres da destruição. Eu sempre gostei de obras steampunk e clockpunk, fiz até uma review de The Music of Marie no Selected Mangás e me interessei por esse filme por recomendação do podcast #71 de Katsuhiro Otomo do Animecote, cheguei à sala de exibição com grandes expectativas.

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O principal destaque do filme é animação, tanto a movimentação das cenas de ação e dos maquinários como a riqueza dos detalhes da fotografia são absurdas, foi uma das melhores animações que já vi em qualquer coisa. A variedade dos tipos de máquinas e o seu detalhamento são impressionantes, o Otomo sabe fazer muito bem esse tipo de coisa. As temáticas desse filme são bem exploradas por exemplo como algo tecnologicamente revolucionário pode ser nocivo à sociedade se cair nas mãos erradas, a temática dele se aproxima do filme Vidas ao Vento, só que trabalhada de uma forma diferente como um filme de aventura diferente de qualquer coisa. Agora indo para os contras, percebi que o filme acabou sendo muito pretensioso ao tentar ser algo épico, houve problemas no desenvolvimento de alguns personagens, o excesso de cenas de ação (e “obstáculos” no caminho do protagonista em um esquema de narrativa simplória) que consumiram muito tempo do filme e atrasaram a narrativa deste e o final anticlimático. O Ray, o protagonista principal, é um garoto com ideais nobres de heroísmo que não se dobra para interesses egoístas, mas ele acaba sendo igual a milhares de protagonistas que vemos por aí por não ter um desenvolvimento de seu passado e de sua personalidade suficiente para torná-lo um personagem único.

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O avô e o pai dele produzem um questionamento interessante sobre a responsabilidade das inovações tecnológicas, o avô defendia que as inovações só poderiam ser usadas para o bem enquanto o pai defendia o lucro em cima destas, mesmo que estas sejam usadas para fins bélicos. Isso é um questionamento interessante que o filme traz, só que a chegada de um aliado do avô do garoto que no final das contas era igual ao pai dele põe a motivação do velho em xeque, deixando a gente na duvida se o avô do Ray era burro ou falso. O pai também sofre uma mudança que não consegui entender direito, fiquei na dúvida se ele era um cara louco e ganancioso ou se ele era apenas um cara irresponsável. Eu esperava que alguma responsabilidade entre os personagens que provocaram todo aquele conflito em Londres fosse imposta no final mas aí vem outro problema do filme, um final aberto e anticlimático.

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Com isso, parece que o roteirista não teve bolas para mostrar a responsabilidade das consequências das atitudes dos personagens do filme e as reais dimensões dos estragos que eles fizeram. O epílogo nos créditos do filme até mostrou algumas cenas sobre o futuro dos personagens (como o da Scarlett, que teve o melhor desenvolvimento no filme por incrível que pareça), mas não foi o suficiente. Steamboy é um filme que merece respeito pela sua ótima animação e pela sua ambientação competente, mas infelizmente acaba frustrando as minhas expectativas com alguns deslizes no desenvolvimento dos personagens. Ainda sim recomendo o filme mas aconselho a dar uma segurada no hype e assistir sem grandes expectativas para aproveitar melhor o filme pois o filme no geral está longe de ser perfeito. Este é outro filme que farei uma review completa no futuro.

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Classificação: Bom

Concluo esse post agradecendo aos organizadores do evento (CAIXA Cultural e Nuage.art.br) citado acima pelo ótimo evento que eles organizaram e fico na expectativa de mais eventos desse tipo aparecerem aqui em Brasília. A iniciativa de trazer filmes de qualidade de diretores consagrados a preços extremamente acessíveis é algo que acrescenta muito aos moradores da cidade em termos de cultura e entretenimento de qualidade e é uma iniciativa que deve ser valorizada. Esse é o primeiro evento que cubro no blog, pretendo cobrir outros eventos desse tipo que aparecerem. Queria saber o feedback de vocês nos comentários abaixo, falem o que acharam do post.

Pagina da mostra no Facebook.

Link do Jornal de Brasília sobre a mostra.

Anexos (programação e convite) :

programação e-convite

Imagens da cartilha do evento:

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